sábado, 8 de setembro de 2007

Estar sozinho...

(imagem: Kim Anderson)

" Não é apenas o avanço tecnológico que marcou o inicio
deste milênio. As relações afetivas também estão passando
por profundas transformações e revolucionando o conceito
de amor.
O que se busca hoje é uma relação compatível com os
tempos modernos, na qual exista individualidade, respeito,
alegria e prazer de estar junto, e não mais uma relação de
dependência, em que um responsabiliza o outro pelo seu
bem-estar.
A idéia de uma pessoa ser o remédio para nossa felicidade,
que nasceu com o romantismo, está fadada a desaparecer
neste início de século. O amor romântico parte da premissa
de que somos uma fração e precisamos encontrar nossa
outra metade para nos sentirmos completos.
Muitas vezes ocorre até um processo de despersonalização
que, historicamente, tem atingido mais a mulher. Ela
abandona suas características, para se amalgamar ao
projeto masculino.
A teoria da ligação entre opostos também vem dessa raiz o
outro tem de saber fazer o que eu não sei. Se sou manso,
ele deve ser agressivo, e assim por diante. Uma idéia
prática de sobrevivência, e pouco romântica, por sinal.
A palavra de ordem deste século é parceria. Estamos
trocando o amor de necessidade, pelo amor de desejo. Eu
gosto e desejo a companhia, mas não preciso, o que é
muito diferente.
Com o avanço tecnológico, que exige mais tempo
individual, as pessoasestão perdendo o pavor de ficar
sozinhas, e aprendendo a conviver melhor consigo mesmas.
Elas estão começando a perceber que se sentem fração,
mas são inteiras. O outro, com o qual se estabelece um elo,
também se sente uma fração. Não é príncipe ou salvador de
coisa nenhuma. É apenas um companheiro de viagem.
O homem é um ser que vai mudando o mundo, e depois tem
de ir se reciclando, para se adaptar ao mundo que fabricou.
Estamos entrando na era da individualidade, o que não tem
nada a ver com egoísmo. O egoísta não tem personalidade
própria; muitas vezes ele se alimenta da personalidade que
vem do outro.
A nova forma de amor, ou mais amor, tem nova feição e
significado. Visa a aproximação de dois inteiros, e não a
união de duas metades. E ela só é possível para aqueles
que conseguirem trabalhar sua individualidade.
Quanto mais o indivíduo for competente para viver sozinho,
mais preparado estará para uma boa relação afetiva. A
solidão é boa ( se sentir solitário é perigoso ). Ao contrário,
dá dignidade à pessoa. As boas relações afetivas são
ótimas, são muito parecidas com o ficar sozinho, ninguém
exige nada de ninguém e ambos crescem.
Relações de dominação e de concessões exageradas são
coisas do século passado. Cada cérebro é único. Nosso
modo de pensar e agir não serve de referência para avaliar
ninguém. Muitas vezes, pensamos que o outro é nossa alma
gêmea e, na verdade, o que fizemos foi inventá-lo ao nosso
gosto.
Todas as pessoas deveriam ficar sozinhas de vez em
quando, para estabelecer um diálogo interno e descobrir
sua força pessoal. Na solidão, o indivíduo entende que a
harmonia e a paz de espírito só podem ser encontradas
dentro dele mesmo, e não à partir do outro. Ao perceber
isso, ele se torna menos crítico e mais compreensivo
quanto às diferenças, respeitando a maneira de ser de cada
um.
O amor de duas pessoas inteiras é bem mais saudável.
Nesse tipo de ligação, há o aconchego, o prazer da
companhia e o respeito pelo ser amado.
O importante é perceber a diferença entre paz e felicidade.
Paz é equilíbrio; neste equilíbrio o homem é um todo
realizado.
Felicidade, esta é tão passageira e, muitas vezes,
enganosa!
Cuidado, não se engane."

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